Hipoglicemia Noturna: Um trauma do qual nem me lembro...

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Na última quarta-feira, antes de jantar a glicemia estava alta: 242. Resultado de um dia chatinho, com uma hipo de 39 de manhã no trabalho e outra de 57 à tarde. Meu sentimento era de que estava tudo esquisito. Um calor de matar, uma moleza, cansaço e stress e a glicemia brincando de montanha russa.

Vi o número e pensei: 'Que saco, um dia daqueles'. Não cheguei a ter nenhuma consideração realmente relevante sobre os altos e baixos, até porque durante o dia não tive altos tão grandes. Fiz a correção e jantei. O jantar era o de quarta, o que aqui em casa significa lanche, então eu só corrigi a glicemia e o pão do lanche, já que o recheio era lagarto assado.

Tomei um banho e fui deitar, faltando ainda uns 30 minutos para medir. E, é claro, dormi antes do horário. Poderia dizer capotei...

De madrugada, do nada, acordo com muito calor. Sento na cama, passo a mão na roupa e sinto ela molhada, encharcada. Com a mão direita, ligo o climatizador. Tento respirar, mas me sinto muito trêmula. Olho em volto, tudo meio em câmera lenta. Na minha frente, minha toalha pendurada na cadeira, penso em pegar e... Apago!

Acordo como se tivesse dormido dias, lentamente abro os olhos sem entender exatamente onde estou, lembro de ter sentado na cama de madrugada. E vejo que está tudo claro. O que logo estranho já que acordo todos os dias às 5h30 para ir trabalhar, o que, no horário de verão, significa que ainda deveria estar escuro. No susto, me toco que estou atrasada para trabalhar e sento rapidamente na cama. Meu corpo endurece. Os músculos doem, como se eu tivesse tido câimbras diversas, várias delas, em vários lugares. Tudo dói.

O raciocínio em câmera lenta. Pego o celular e olho as horas. 7h30. Levanto devagar, acendo a luz do quarto, olho para a cama e papéis de bala, a toalha jogada, o aparelho de medir a glicemia. Tudo espalhado no meio da coberta. Pego a aparelho, nenhuma medição posterior àquele 242. Sento na cama, tremendo, tento lembrar... Nada. Só aquela rápida sentada da madrugada.

A ficha cai. Uma hipo, das fortes. Inconsciência, talvez convulsão? E uma crise de choro. 'Meu Deus, eu podia ter morrido! Meu Deus, eu não controlo meu corpo! Meu Deus...'.

Eu nunca tinha tido uma hipo de ficar tão mal. Já tive sim hipos de esquecer, de pegar as balas, mas não lembrar de chupar todas, só as primeiras. Mas de acordar atropelada por um caminhão foi a primeira. E mesmo sem lembrar de nada, o desespero que senti naquele primeiro momento foi o de impotência.

Não passou nada específico pela minha cabeça, só um medo. Um medo silencioso de será que isso vai acontecer sempre? O que será que fiz de errado? 'Meu Deus, eu podia ter morrido'.

Nesta quinta não fui trabalhar. Tinha horas extras e tirei uma folga. Precisava botar a cabeça no lugar. Conversei com amigas do meio, que tem diabetes ou filhos com diabetes. Conversei com a médica. Conversei com outros amigos. Conversei com Deus. Conversei comigo mesma.

Sim, inconsciência. Possível convulsão. Um dia isso iria acontecer. Ter hipoglicemia não é totalmente desconhecido de quem tem diabetes e toma insulina. Erros acontecem. Tomar insulina, comer pouco, muito calor, muito frio, muito exercício, muito stress. São tantos fatores. Não posso me culpar, nem o universo, nem Deus, nem a minha realidade. Isso um dia iria acontecer. E quantas histórias dessas eu já tinha ouvido e simplesmente não entendia. Agora entendo!

Passei esse primeiro dia com a glicemia na cada dos 200. Não queria corrigir com medo de cair de novo, não queria parar de comer com medo de cair de novo, media compulsivamente. Estava com medo... Mas a vida é medo. Se não é de hipo, é de assalto, é do diferente, é de qualquer coisa. Quem não vive com algum tipo de medo? O importante é aprender a conviver com ele. Um dia de cada vez.

Ainda não lembro o que aconteceu. Nunca terei certeza. Mas aos poucos vou retomando o controle. Aos poucos voltei a tomar as doses como deveria, voltei a medir nos horários normais, comecei a comer mais calmamente. No entanto desde o primeiro dia, tenho dormido como um bebê. Talvez um sinal de que lá no fundo eu sei que tudo vai ficar bem.

Luana Alves

Tenho mania de escrever e de ver sempre o lado bom das coisas. Com diabetes desde 2010, acredito que uma vida controlada e divertida é possível sim. Jornalista, creio que posso ajudar os outros a acreditar também. Que saber mais sobre mim? Clica aqui!

6 comentários:

  1. Luana, que sufoco...Passei por essa situação...Ficamos perdidas, tentando entender. Ainda bem q vc está bem!
    Eneida😗


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    1. Olá, Eneida! A gente se sente perdida mesmo, mas com calma tudo está ficando bem. Obrigada!

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  2. Luana eu passei pela mesma situação. Porem eu tive uma hipo muito feia acordado. Não percebi que ela abaixou e cai sobre uma vitrine de vidros em meu trabalho. Isso vai fazer mais ou menos 7 anos. Nunca mais eu fui o mesmo diabético. Tenho um trauma gigante de ter novamente uma hipo. Medo de perder o controle. Não consigo deixar a minha em 150. Deixo ela na faixa de 200 e sei que isso vai me prejudicar de alguma forma. Meço minha glicemia umas 10x por dia. 10x ! Comecei a ter vários problemas devido a essa hipo. Tonturas e crises de pânico (sempre acho que as tonturas que eu tenho só hipo e já desencadeia algumas crises de pânico). Atualmente faço acompanhamento psiquiátrico mas, está muito difícil. Não posso deixar mais esse medo me controlar. Li seu texto sentindo tonturas de medo de ter uma hipo.
    Mas acima de tudo temos que nos cuidar. Levaremos esse problema para sempre e temos que conviver com ele. Um grande beijo e fique com Deus !

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    1. Oi, Caio. Acho que meu maior medo no primeiro dia foi de desenvolver algum tipo de medo deste tipo que você tem. Imagino que não deve ser nada fácil! Mas, olha, te desejo toda a força do mundo. Que você super e com isso tenha um controle melhor. Forte abraço!

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  3. Oi ,passei por isso hoje do mesmo jeito que você,porem não sabia que eu tinha hipoglicemia.ainda estou me recuperando,amanhã vou para o hospital.eu pensei que ia morrer,so jesus!

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    1. A sensação é essa mesma, né? Parece que vamos morrer. Por isso é importante agradecer todos os dias por ainda estarmos aqui com a possibilidade de continuar lutando. Que você fique bem. Beijos no coração!

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